“A Livraria”, de Penelope Fitzgerald

Este é um livro sobre livros, mas que não faz qualquer referência a livros.

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A Livraria” é o segundo romance da autora britânica Penelope Fitzgerald, que ganhou o Booker Prize, em 1979, com a obra “Offshore”.

Uma breve introdução

Em “Penelope Fitzgerald: A Life”, Hermione Lee afirma que a autora criava personagens que mais se pareciam com intrusos. Segundo Lee, a própria Fitzgerald olhava para si como um intrusa, passando esse sentimento para as pessoas acerca das quais escrevia por serem “inadaptados, artistas românticos, fracassados esperançosos, amantes incompreendidos, órfãos e aves raras” (Prefácio de “A Livraria”, Clube do Autor: 2016, p. 7).

Neste romance não é diferente: a própria personagem principal, Florence Green, torna-se uma intrusa quando decide abrir uma pequena livraria na vila de Hardborough, em East Suffolk. A autora dizia sentir-se “atraída por pessoas que parecem ter nascido derrotadas ou estão profundamente perdidas” (Prefácio por Hermione Lee, “A Livraria”, Clube do Autor: 2016, p. 7), o que deixa transparecer em Florence Green.

Os livros

Um romance intitulado de “A Livraria” deixa no leitor uma certa expectativa: a expectativa de ler sobre livros, ficção e literatura. Contudo, nada é referido sobre este tema com a exceção do romance “Lolita” de Vladimir Nabokov, embora nada seja referido sobre o seu conteúdo, e uma pequena consideração sobre o que é um bom livro:

Um bom livro é o precioso sangue vital de um espírito mestre, embalsamado e entesourado de propósito para uma vida para lá da vida.”

“A Livraria”, Penelope Fitzgerald (Clube do Autor: Lisboa, 2010), p. 69.

Ao longo da história percebemos que os moradores da vila, e possíveis clientes da livraria de Florence, não gostam de autores como Jane Austen, T. S. Eliot ou Henry James. Pelo contrário, quando visitam a livraria procuram livros com títulos como “Vida Quotidiana na Grã-Bretanha Antiga” e sobre a realeza britânica. Há ainda quem pretenda possuir a propriedade onde foi instalada a livraria para abrir um centro de artes, o que mostra o quanto a literatura é desvalorizada na vila de Hardborough.

As diferenças sociais e a educação

O romance, não só é marcado pelo tema da indiferença literária, como também faz constantes referências às diferenças sociais. A vila é um lugar severo e sem piedade, tendo os seus moradores perfeita consciência desta característica.

Na introdução da obra, David Nicholls refere que Fitzgerald faz uma grande divisão: entre “exterminadores e exterminados, os primeiros predominam em qualquer altura” (Introdução por David Nicholls, “A Livraria”, Penelope Fitzgerald, Clube do Autor: 2010, p. 16). Este é então um livro sobre o fracasso, o que fica claro logo no início do romance quando a autora faz referência à passagem das crianças à escola secundária.

No que respeita à educação, percebe-se que as crianças de Hardborough são levadas a tentar passar o exame para a escola secundária, após a quarta classe, pois é o que lhes dará estatuto. Se ingressarem na escola secundária, conseguirão um bom emprego e um bom casamento; caso contrário, é uma “sentença de morte”, tal como refere a personagem Mrs. Gipping, mãe de Christine, a menina que ajuda Florence na livraria.

O sobrenatural e as expectativas

Esta é também uma história de fantasma: todos em Hardborough estão familiarizados com o poltergeist que habita a Old House, local onde Florence decidiu abrir a sua livraria. Desde o início do romance que percebemos que ninguém na vila se mostra cético nem procura uma explicação para este fenómeno sobrenatural. Na verdade, todos o aceitam com a maior naturalidade.

As expectativas que possam surgir na mente do leitor são constantemente negadas e todas as possíveis explicações recusadas. Exemplo desta negação é a própria existência do poltergeist: ninguém sabe por que razão apenas mostra atividade em Old House nem por que se torna mais violento na presença da pequena Christine.

No que respeita à recusa de explicações, este facto torna-se óbvio quanto ao passado e ao futuro de Florence Green: começamos o romance sem saber de onde veio e acabamos a leitura sem saber para onde vai. Já Christine, que parece não gostar livros enquanto trabalha como ajudante de Mrs. Green, poderá vir a gostar de livros quando for mais velha? Não sabemos. Na verdade há muito pouco que sabemos sobre as personagens para além das experiências que Florence tem com cada uma.

O humor e a derrota

O humor com que Penelope Fitzgerald exprime as suas críticas e opiniões poderá ser considerado social e britânico, tal como refere David Nicholls (p. 18). Um momento deste tipo prende-se com a prova de um vestido que Florence faz para comparecer numa festa dada por Mrs. Gamart. Eis o seu comentário sobre o vestido que está a provar:

Talvez se tentar ficar a maior parte do tempo de costas para a parede…”

“A Livraria”, Penelope Fitzgerald (Clube do Autor: Lisboa, 2010), p. 43.

O final do romance é marcado por um sentimento de derrota e pura tristeza sentidas por Florence, em relação à sua livraria. Para Hardborough, e para as pessoas que habitam a vila, não há qualquer esperança. Quanto à livraria de Florence, não há muito a acrescentar.