“A Volta no Parafuso”, de Henry James

A Volta no Parafuso é a obra mais enigmática de Henry James. De acordo com Oscar Wilde, «É um pequeno conto maravilhoso, terrível e venenoso».

Henry James: vida e obra

Créditos: DR

Henry James nasceu em Nova Iorque, em 1843; contudo, tem origens escocesas e irlandesas. O autor sempre escreveu romances psicológicos, mas parte para a Europa quando percebe que os Estados Unidos não ofereciam temas adequados a este género literário. Assim, depois de viver um ano em Paris, muda-se para Londres em 1876.

Nas suas obras, Henry James analisa ambientes cosmopolitas e personagens femininas. No entanto, sempre mostrou preferência por histórias de fantasmas, explorando a «ténue fronteira entre o sobrenatural e as áreas mais recônditas da mente humana». As novelas mais conhecidas são as seguintes: A Volta no Parafuso, Retrato de Uma Senhora, Os Europeus, O Mentiroso e Daisy Miller, entre outras.

Breve resumo

Nesta novela, lê-se sobre a história de uma preceptora inglesa, encarregada da propriedade de Bly e da educação de duas crianças: Miles, um rapaz de 10 anos, e Flora, a sua irmã de 8 anos. A Preceptora escreve tudo o que vai vivendo com estas duas crianças, e percebemos que, ao ser perseguida por fantasmas, aquilo que afirma ver provoca horrores inexplicáveis.

Assim, a Precetora tenta salvar Miles e Flora das influências malignas dos fantasmas de Peter Quint, antigo criado na propriedade de Bly, e de Miss Jessel, a preceptora que antecedeu a autora do manuscrito que dá a conhecer esta história.

O texto poderá ser consultado na íntegra e na versão original aqui.

A narrativa

O esquema da narração mostra-se complexo desde o início: o narrador ouve uma história contada por Douglas, um hospedeiro, que por sua vez lê um manuscrito escrito na primeira pessoa pela preceptora. Este narrador anónimo, muito provavelmente um homem, afirma, no final do prólogo, que têm um título para a obra: The Turn of the Screw.

Assim, lemos uma história sobre uma preceptora que escreve sobre o que observa. Mas será que ela entende o que vê? Será que ela vê realmente os fantasmas de Peter Quint e de Miss Jessel?

A interpretação da obra

Quando se inicia a leitura desta novela, enfrentamos um problema que não se prende com o ato de ler, mas sim com o ato de interpretar o que se lê. Embora consigamos compreender as palavras, não somos capazes de chegar ao seu significado num todo.

Este estranho fenómeno acontece, pois lemos sobre acontecimentos vividos pela Preceptora que nem ela própria os compreende realmente. O leitor fica limitado ao que esta personagem vê e escreve, deixando-o a questionar todas as pistas que vai recebendo para entender a história.

O que a preceptora vê

No prólogo, é claro que estamos a ler sobre o relato escrito do que a Preceptora viu enquanto esteve empregada em Bly. Existe, portanto, uma forte presença da visão ao longo de toda a novela. Primeiramente, percebemos que a Preceptora acredita que o que vê corresponde de facto à realidade, chegando a ler-se, no capítulo III, que «(…) the only way to be sure he knew, would be to see it (…)». Neste passo, a Preceptora refere-se ao reconhecimento dos seus esforços em educar as crianças por parte do seu patrão, o tio de Miles e Flora, dando a entender que apenas saberá se tem a sua aprovação com o vir espelhado no seu rosto.

Logo no parágrafo seguinte, a Preceptora vê uma figura, pensando que é o seu patrão. Porém, e para sua grande surpresa e choque, o que ela vê não é o que parece, pois vê, pela primeira vez, o que afirma ser o fantasma de Peter Quint: «the man who met my eyes was not the person I had precipitately supposed.» (Capítulo III).

Até ao Capítulo XX, sempre que a Preceptora avista o que afirma serem os fantasmas de Peter Quint e Miss Jessel encontra-se sempre sozinha. Embora confidencie o que vê a Mrs. Grose, nunca é claro que estas visões correspondem à realidade. No entanto, neste capítulo, a Preceptora pode provar o que vê, pois está na presença de Mrs. Grose e Flora:

Miss Jessel stood before us on the opposite bank exactly as she had stood the other time, and I remember, strangely, as the first feeling now produced in me, my thrill of joy at having brought on a proof. She was there, and I was justified; she was there, and I was neither cruel nor mad.”

The Turn of the Screw, Henry James (Capítulo XX).

Apesar de a Preceptora estar convencida de que poderá provar o que vê, pois o fantasma de Miss Jessel está mesmo à frente das três, Mrs. Grose afirma que não vê absolutamente nada e que tudo não passa de um erro ou de uma piada:

“She isn’t there, little lady, and nobody’s there—and you never see nothing, my sweet! How can poor Miss Jessel—when poor Miss Jessel’s dead and buried? We know, don’t we, love?”—and she appealed, blundering in, to the child. “It’s all a mere mistake and a worry and a joke—and we’ll go home as fast as we can!” “

The Turn of the Screw, Henry James (Capítulo XX).

Neste sentido, estamos perante duas mulheres que veem duas coisas completamente diferentes: enquanto a Preceptora vês os fantasmas de Peter Quinte e Miss Jessel, Mrs. Grose não vê absolutamente nada ou assim o afirma. Este facto leva-nos a questionar se os fantasmas estão realmente na propriedade de Bly para corromperem as crianças, tal como a Preceptora suspeita, ou se tudo não passa da sua imaginação. Haverá forma de saber ao certo?

Estamos então perante duas formas de ver: vemos, com os nossos olhos, o que não está à nossa frente, estando num caso de ótica; ou interpretamos o que alguma coisa quer dizer, e neste caso estamos perante uma situação de interpretação. Em ambos os casos, o que vemos não é sempre o que parece.

O que a preceptora interpreta

Um dos assuntos explorados na novela é o sentido da visão. Henry James mostra ao leitor que aquilo que vemos, ou não vemos, poderá ter múltiplas interpretações. Neste sentido, sabemos que a Preceptora vê dois fantasmas e ao que tudo indica esta é a interpretação mais óbvia. Porém, o facto de o leitor saber que Mrs. Grose não vê o mesmo – aliás, não vê fantasma nenhum -, leva-nos a questionar se a Preceptora está a interpretar corretamente aquilo que vê.

Contudo, existe a forte possibilidade de a Preceptora ver realmente fantasmas: no Capítulo VIII, Mrs. Grose acredita que a Preceptora vê o fantasma de Peter Quint e o de Miss Jessel, pois quando os descreve, Mrs. Grose reconhece ambas as figuras. Tal como já mencionado, Mrs. Grose trabalhou com Peter Quint e Miss Jessel antes de a Preceptora ter sido contratada.

Late that night, while the house slept, we had another talk in my room, when she went all the way with me as to its being beyond doubt that I had seen exactly what I had seen. To hold her perfectly in the pinch of that, I found I had only to ask her how, if I had “made it up,” I came to be able to give, of each of the persons appearing to me, a picture disclosing, to the last detail, their special marks—a portrait on the exhibition of which she had instantly recognized and named them.”

The Turn of the Screw, Henry James (Capítulo VIII).

Assim, é possível que, embora não os veja, Mrs. Grose acredita que a Preceptora esteja a interpretar bem o que vê e estes dois fantasmas assombrem Bly, pois caso não os visse nunca conseguiria descrevê-los. Contudo, esta é a única prova concreta de que a Preceptora poderá realmente ver fantasmas.

No Capítulo VI, a Preceptora afirma com toda a certeza que sabe ter visto o fantasma de Peter Quint quando diz «“I know, I know, I know!” My exaltation grew.» Mas o facto de saber não é prova suficiente por dois motivos: o primeiro prende-se com o facto de nunca podermos confiar a cem por cento nas nossas intuições, pois na maioria das vezes acabamos por estar errados; o segundo diz respeito à experiência, ou seja, nunca antes a Preceptora passou por uma situação semelhante para poder afirmar que sabe o que viu.

Avançando para o capítulo seguinte, a protagonista está convencida de que as crianças sabem da existência destes dois fantasmas e de que sabem quem eles são:

I got hold of Mrs. Grose as soon after this as I could; and I can give no intelligible account of how I fought out the interval. Yet I still hear myself cry as I fairly threw myself into her arms: “They know—it’s too monstrous: they know, they know!”

“And what on earth—?” I felt her incredulity as she held me.

“Why, all that we know—and heaven knows what else besides!” Then, as she released me, I made it out to her, made it out perhaps only now with full coherency even to myself. “Two hours ago, in the garden”—I could scarce articulate—“Flora saw!” “

The Turn of the Screw, Henry James (Capítulo VII).

Mais uma vez, a Preceptora confia na sua intuição, mas não tem como explicar como sabe que a pequena Flora viu o que ela suspeita que a menina viu. Para além da falta de explicações, o leitor depara-se também muitos poucas justificações para a Preceptora afirma todas estas certezas.

E o leitor?

Como fica o leitor após ler esta novela? Ao longo da leitura, conseguimos entender cada palavra e o seu significado, tal como nos é possível interpretar cada frase que lemos. Contudo, conseguimos resumir o enredo?

Sabemos que estamos a ler as vivências de uma Preceptora enquanto tinha ao seu encargo duas crianças e uma propriedade inteira. Entretanto, começa a ter visões de dois fantasmas que acredita assombrarem Miles e Flora com o intuito de corromperem a sua inocência; porém, nunca é explícito o que a Preceptora quer dizer com “corromper”. No final, e depois de várias tentativas para salvar as crianças, Miles morre e Flora deixa Bly doente. E esta novela é sobre o quê exatamente?

Concluímos que, devido à falta de provas e de conhecimento em concreto – não apenas teorias e intuições -, não conseguimos acrescentar muito mais factos quando tentamos resumir a história. Assim, esta é uma novela sobre ter dúvidas e sobre perceções visuais, o que nos leva a nunca ter a certeza se a Preceptora viu realmente fantasmas ou se sofria de alucinações.

Por Catarina Duarte Alves

Licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Catarina Alves é uma apaixonada por livros e, atualmente, trabalha como livreira numa cadeia nacional.