O que farias se pudesses voltar atrás no tempo?

O romance está dividido em quatro partes, cada uma delas contando a história de uma personagem diferente. Todo o enredo tem lugar no café Funiculi Funicula, onde é possível viajar no tempo, voltando ao passado.

Todos temos os nossos motivos para desejarmos voltar ao passado; contudo, e embora seja possível no universo construído por Kawaguchi, um conjunto de várias regras rigorosas levariam a que muita gente desistisse da ideia. Porém, para estas quatro personagens, curiosamente todas elas mulheres, nenhuma regra parece impedi-las.

«I. Os Amantes»

Nesta primeira história, acompanhamos parte da relação entre Fumiko e Goro. Após Goro ter terminado o namoro com Fumiko neste café tão especial, a jovem mulher pretende voltar ao passado para saber a verdadeira razão por detrás da decisão de Goro a abandonar para viajar para a América. Ficamos então a conhecer as regras que devem ser cumpridas por quem pretende viajar no tempo até ao passado e as consequências para quem não as cumprir devidamente.

Neste ponto da obra é feita uma pequena referência ao sobrenatural ao ser referida uma «mulher de vestido» que frequenta o café, tal como ficamos a compreender o título que foi dado à obra:

« – Se não beber o café todo antes que arrefeça…

– Se não beber o café?

– Será a sua vez de ser o fantasma sentado nesta cadeira.»

Antes que o Café Arrefeça, de Toshikazu Kawaguchi (Editorial Presença), 2021: p. 46.

Todas as regras são enumeradas por Kazu, empregada do café, que as explica a Fumiko quase como que tentando persuadi-la da ideia de voltar ao passado. Das seis regras, enumeradas entre as páginas 41 e 42, aquela que leva muitos clientes a desistirem desta ideia é a segunda: por mais que se tente durante a viagem ao passado, nado no futuro irá alterar-se. Então para quê voltar ao passado?

Quando Fumiko regressa ao presente, acaba por concluir algo que não podemos deixar de partilhar: a esperança está no que podemos mudar no presente para assim chegarmos ao futuro que pretendemos. O nosso futuro depende das ações que praticamos, ou não, no presente.

«II. Marido e Mulher»

Agora é a vez de o leitor ficar a conhecer a história de amor de Fusagi, um jovem doente que sofre de Alzheimer precoce, e Kohtake, sua esposa. Fusagi não se lembra que Kohtake é sua esposa e todos os dias frequenta o café na esperança de conseguir voltar ao passado e entregar uma carta à esposa.

No entanto, é Kohtake quem viaja até ao passado precisamente para saber o conteúdo da carta que o marido lhe escreveu. Com a relação de ambas as personagens compreendemos que o amor tem muitas formas: Kohtake, não podendo ficar ao lado de Fusagi como sua esposa, fica como sua enfermeira.

É nesta segunda parte que compreendemos as funções da «mulher de vestido» no que respeita às viagens no tempo e ao café propriamente dito. Por exemplo, na página 98, o leitor fica a perceber por que razão este é o único café na cidade em que está sempre fresco durante o verão:

«Kei saiu da cozinha e serviu mais uma chávena à mulher de vestido.

– Agradecemos muito a sua presença aqui mais este verão – disse-lhe num murmúrio.»

Antes que o Café Arrefeça, de Toshikazu Kawaguchi (Editorial Presença), 2021: p. 98.

«III. As Irmãs»

A história inicia com uma rapariga que viajou até ao passado, pois está sentada na única cadeira com a qual é possível viajar no tempo. Apenas na página 105 é que percebemos que vem ver Kei, a esposa de Nagare, o dono do café:

« – Gostava de tirar uma fotografia consigo.

Kei pestanejou, espantada com as palavras dela.

– Comigo? – perguntou.

– Sim.»

Antes que o Café Arrefeça, de Toshikazu Kawaguchi (Editorial Presença), 2021: p. 105.

É a primeira vez que o leitor toma conhecimento que alguém viajou no tempo para ver um dos três funcionários do café: Nagare, o proprietário; Kei, esposa de Nagare; e Kazu, a funcionária que prepara o café que leva os clientes a viajarem no tempo. Esta nota aumenta o mistério que em que esta visita é envolta e o leitor é deixado à espera para saber mais pormenores.

Na verdade, quem irá viajar até ao passado é Hirai, a proprietária de um bar que passa sempre pelo café antes de ir trabalhar. Hirai pretende viajar no tempo para ver a irmã uma última vez, após saber da notícia de um acidente mortal.

Com esta viagem ao passado, ficamos a conhecer um pouco melhor Hirai e a sua família, concluindo que muitos mal entendidos se devem à falta de comunicação ou a más interpretações durante uma conversa. Embora Hirai nada possa fazer para impedir a morte da irmã, pode tentar cumprir a promessa que lhe fez e cumprir o sonho da irmã.

«IV. Mãe e Filha»

Fumiko, a protagonista da primeira história, volta com todas as suas questões e dúvidas, mas desta vez sobre viagens ao futuro. Apesar de Kazu mostrar-se muito indiferente nas suas explicações, também Kohtake mostra muita curiosidade. No entanto, é Kei quem realiza a viagem ao futuro para se encontrar com a filha que nunca conhecerá.

Sabemos que o futuro é incerto; porém, tudo parece estar a favor de Kei, com exceção de Nagare. Curiosamente, também a «mulher de vestido» parece apoiar a decisão de Kei em viajar até ao futuro para conhecer a filha:

«A mulher de vestido fechou o romance. Não terminara a sua leitura: por entre as páginas do livro via-se uma fita vermelha atada a um marcador branco. Ouvindo o livro fechar-se, Kei olhou-a. A mulher de vestido mirou-a de volta e ali ficou de olhos cravados nela.

De olhar pregado em Kei, a mulher de vestido pestanejou uma única vez, após o que se ergue tranquilamente do lugar. Foi como se aquele pestanejar tivesse intenção de comunicar algo (…).»

Antes que o Café Arrefeça, de Toshikazu Kawaguchi (Editorial Presença), 2021: pp. 160-161.

Quando Kei encontra a filha, Miki, reconhece-a. Contudo, durante a curta troca de palavras, ambas se emocionam e Kei afirma algo inesperado e que lhe dará força quando volta ao presente:

«É preciso coragem para se dizer o que tem de ser dito.»

Antes que o Café Arrefeça, de Toshikazu Kawaguchi (Editorial Presença), 2021: p. 181.

Toshikazu Kawaguchi termina o seu romance dizendo que, embora nenhuma destas personagens tenha conseguido alterar o presente, todas elas saíram transformadas destas viagens no tempo. Poderá concluir-se que, ao pensarmos no nosso passado ou idealizarmos o nosso futuro, também nós podemos transformar o nosso presente e sermos felizes com o que a vida tem para nos oferecer.

Por Catarina Duarte Alves

Licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Catarina Alves é uma apaixonada por livros e, atualmente, trabalha como livreira numa cadeia nacional.