Ativismo Social Online. Como um site pode fazer a diferença em causas humanitárias

Fazemos uma viagem pelo site Avaaz, uma nova forma de fazer ativismo e como pode ser diferenciador.

A Subscrito não se interessa-se apenas por temas relacionados com livros e arte em geral. Na verdade, interessamo-nos por temas atuais como sustentabilidade, direitos humanos e preservação do meio ambiente. Neste sentido, um dos temas que gostariamos de explorar prende-se com o ativismo social online. Damos então a conhecer o Avaaz.

Avaaz, O Mundo em Ação

O site Avaaz é uma comunidade online que tem como função alertar para assuntos preocupantes de caráter global, levando a que sejam realizadas campanhas específicas por todo o Mundo. Segundo Manuel Castells, uma comunidade virtual é “uma rede eletrónica auto-definida de comunicação interativa e organizada em torno de interesses ou objetivos partilhados”.

De acordo com o próprio site, “Avaaz, que significa ‘voz’ em várias línguas europeias, do oriente médio e asiáticas, foi lançada em 2007 com uma simples missão democrática: mobilizar pessoas de todos os países para construir uma ponte entre o Mundo em que vivemos e o Mundo que a maioria das pessoas quer”.

Todos os anos, são estabelecidas prioridades e decididas campanhas em conjunto com os membros e os apoiantes da Avaaz. As campanhas realizadas constroem-se a partir de valores, ou seja, a partir da certeza de que somos todos seres humanos e que temos responsabilidade, não só para connosco, mas também para com o outro, para com as gerações futuras e para com o planeta. A adesão a uma campanha leva a que os membros participem noutras campanhas e tragam consigo mais apoiantes para as causas defendidas pelo site. Deste modo, o Avaaz é uma fonte de “grande esperança” tendo em conta que os “sonhos estão em sintonia e, juntos, podemos construir a ponte que une o Mundo em que vivemos ao Mundo em que todos nós queremos viver”.

Ativismo Social Online

Numa entrevista a Ricken Patel, fundador canadiano do site Avaaz, escrita por Carole Cadwalladr – “Inside Avaaz – can online activism really change the world?”, The Guardian –, o leitor apercebe-se da dimensão do ativismo on-line. Segundo Patel, esta nova forma de protesto é conhecida, entre os apoiantes Avaaz, de clickativism.

A dimensão do clickativism é visível através do número crescente de apoiantes, que no momento em que o artigo fora publicado, em 2013, rondava os trinta milhões de membros apoiantes, em Maio de 2017 chega perto dos quarenta e cinco milhões. Até ao ano presente, esta comunidade realizou 463,473,596 ações de carácter humanitário e social, organizou 2,792 campanhas e conseguiu que 194 países reconheçam o seu trabalho e se tornem seus membros apoiantes. Neste momento, o site conta 65,816,581 membros apoiantes e estes números crescem diariamente.

Assim, o Avaaz não é apenas um movimento que atua a nível global, sendo também ele próprio globalizado: mais de cem indivíduos trabalham no site e nas suas campanhas, sendo todos eles provenientes de mais de quarenta países.

Através de doações, o site constrói as suas campanhas, que leva a cabo até se chegar a resultados positivos. Todas as divulgações de ações sociais, desde movimentos nas ruas até assinaturas de petições, são feitas online – via email. Contudo, antes de serem enviadas para todos os membros apoiantes, as divulgações são testadas a partir de várias versões. Deste modo, é possível compreender qual o tipo de divulgação e qual o tipo de construção desta que apela a mais indivíduos para agirem em detrimento de determinada causa.

Neste sentido, o ativismo online prevê as questões que irão mover multidões e o modo como devem ser apresentadas à população. Assim, “What Avaaz is doing is trying to unlock the secrets of the Internet (…)”. (Carole Cadwalladr, The Guardian), fazendo-o através do ativismo social: há a tentativa de alertar e agir, através da Internet, para problemas como genocídios, violações de Direitos Humanos, espécies em vias de extinção, entre outros.

“Abrindo os nossos corações aos refugiados”

Uma ação promovida pelo site em questão foi a favor da aceitação dos refugiados. Para além das doações monetárias para ajudar os refugiados a sobreviverem nos países de chegada, foram igualmente mobilizados grupos de indivíduos para os receberem e entregarem bens essenciais que chegavam de barco à Grécia. Do mesmo modo, grupos de pessoas foram destacados, no Reino Unido, para ajudarem crianças a reunirem-se com as suas famílias aquando da chegada ao novo destino.

Esta foi uma missão realizada pelo Avaaz que durou cerca de dois anos. De acordo com o artigo publicado no site, foi uma “vitória” bem conseguida e organizada. A missão foi não só realizada através da comunidade online, como foi transportada para o Mundo real e concreto onde centenas de indivíduos se organizaram para ajudar estes refugiados. Tal como acontece em todas as missões, os procedimentos têm início na Internet e muitas delas são seguidamente concretizadas no local.

O Impacto na sociedade em rede

De acordo com o sociólogo Manuel Castells, a Internet é utilizada de forma ativa por aqueles que, socialmente, são ativos nas suas relações humanas. O que acontece com o site Avaaz é o seguinte: indivíduos utilizam a Internet para lutarem pelas causas e valores que defendem, protestando e erguendo uma voz virtual, passando seguidamente para as ruas exercendo o seu direito de cidadania.

Esta nova forma de ativismo social tem um grande impato na Sociedade em Rede, no sentido em que os indivíduos permanecem em constante contacto com o resto do Mundo. Estes indivíduos mantêm-se informados e passam informação de uma forma mais imediata e rápida, de tal modo que numa questão de segundos qualquer indivíduo pode tomar conhecimento de um acontecimento que esteja a decorrer nesse momento no outro lado do Mundo. Poderá afirmar-se que a Sociedade em Rede contribuiu para que a Sociedade Informacional divulgue informação de um modo diferente: nos dias de hoje, a grande maioria da informação é transmitida por via da Internet, através das redes sociais, de jornais online e mesmo blogues.

No que respeita ao Avaaz, verifica-se que grande parte do seu trabalho depende da sua atividade online. Toda a sua atividade em relação à questão dos refugiados realizou-se através de uma petição com assinaturas recolhidas via Internet, com doações feitas via Internet e com missões que, antes de serem realmente postas em prática nos locais de maior necessidade, são planeadas e adquirem voluntários via Internet. Um outro aspeto, é o facto de a divulgação destas missões ser feita online e levarem a que sejam criadas mobilizações apenas “à distância de um simples clique“.

Influência no Mundo real

Através do que Castells denomina de uma Comunicação Emocional, esta organização mobiliza indivíduos de todo o Mundo para apoiarem as suas causas das mais variadas formas – desde doações monetárias e materiais a assinaturas de petições e organização de manifestações. Neste sentido, são criados emails de divulgação, tal como Ricken Patel refere na sua entrevista ao jornal The Guardian, de modo a criarem uma reação no público-alvo. Esta reação pretendida pelas fontes que comunicam a informação tem como objetivo levar os indivíduos a agir.

O Avaaz pretende apelar aos indivíduos que “navegam” pelo site para uma pequena notícia que refere a atribuição do Prémio Nobel da Paz às populações gregas que “salvaram e cuidaram de milhares de famílias de refugiados desesperados”. O objetivo não é apenas informar o público, mas levar a que ele atue e participe ativamente em causas humanitárias que poderão seguir-se.

No site do Diário de Notícias, em Janeiro de 2016, uma notícia referente à petição para a atribuição do Prémio Nobel da Paz à população da Grécia foi publicada durante o processo da recolha de assinaturas. Verifica-se, deste modo, que o jornal em questão pretende sensibilizar o seu público-alvo para esta situação através da comunicação emocional. Esta é uma forma de o Avaaz obter mais visualização no site e de adquirir mais apoiantes. É, igualmente, uma técnica para consciencializar a população portuguesa para que esta adote um comportamento de maior entre-ajuda e compaixão para com os refugiados e as condições em que tentam sobreviver e construir uma vida pacífica nos países a que chegam.

No que respeita a este tipo de comunicação emocional, verifica-se um apelo à compaixão para com os refugiados, bem como um sentimento de aprovação para com a população grega. O Avaaz chama a atenção do leitor do seu artigo não apenas através do título, mas também a partir da imagem que utiliza como ilustração.

Assim, utilizando a Internet e os meios tecnológicos como ferramenta, é possível confirmar que o Avaaz tenta que indivíduos de todo o Mundo façam a diferença e lutem por causas humanitárias, exercendo o seu livre-arbítrio. De acordo com Gustavo Cardoso e Manuel Castells, é o livre-arbítrio dos indivíduos que leva a que a utilização da Internet e dos meios tecnológicos seja positiva ou negativa. Deste modo, poderá ser afirmado que o Avaaz é um site no qual o livre-arbítrio atua positivamente, apesar de poder existir a influência de uma comunicação emocional.

Uma opinião sobre o site

Embora o site Avaaz tenha uma organização fácil de seguir, existem alguns aspetos menos positivos no que respeita à informação das campanhas e missões que estão a ser realizadas, bem como no que se refere ao que o site chama de “vitórias” – missões já concluídas e que tenham obtido consequências ou resultados positivos. Para além destas características menos positivas, a existência de hiperligações torna-se um pouco excessiva nos artigos que publica. Contudo, a página do Facebook da comunidade encontra-se ativa e atualizada.

Por vezes, verifica-se que falta informação no que diz respeito à evolução de cada campanha entre o seu início e o fim. Apesar de todos os artigos a reportar as missões sejam curtos e de existir mais informação sobre cada missão em artigos separados, seria relevante toda a informação estar “arquivada” de modo a facilitar o acesso mais rápido à mesma. Do mesmo modo, seria importante o relatório – ou artigo – de cada missão ser mais completo e dar a conhecer todos os processos que a comunidade Avaaz realizou para poder chamar a essas missões de “vitórias”.

Em conclusão, a comunidade online Avaaz, utiliza a Sociedade em Rede de modo a que o ativismo online seja uma mais-valia em ações de carácter humanitário. A partir do universo virtual, iniciam-se os preparativos para campanhas e missões que farão a diferença no Mundo em que todos nós vivemos. Muitas destas missões concretizam-se, seguidamente, no Mundo real, dando origem a manifestações e ações humanitárias.

Através dos artigos publicados, verifica-se a utilização de uma comunicação emocional que visa chamar a atenção de determinado público-alvo para posteriormente o levar a agir nessa e noutras campanhas que possam surgir de carácter igualmente social e humanitário. O mesmo se verifica com os artigos do Avaaz e do Diário de Notícias sobre a petição de atribuição do Prémio Nobel da Paz à população grega por ter acolhido e ajudado os refugiados de forma tão solidária. Mais uma vez, o leitor está perante uma comunicação emocional da informação.

O livre-arbítrio é uma questão importante no que respeita à utilização da Internet. Ao contrário da opinião pública, que vê a Internet como algo prejudicial na forma como o indivíduo age socialmente e exerce o seu direito de cidadania, os sociólogos Manuel Castells e Gustavo Cardoso veem a Internet como uma ferramenta pronta a ser utilizada por todos os indivíduos de cada sociedade não sendo, portanto, algo prejudicial. Pelo contrário, para estes autores, tanto a Internet como os meios tecnológicos apenas podem ser prejudiciais caso os indivíduos decidam agir maldosamente através da sua utilização. É, assim, o livre-arbítrio de cada indivíduo que tem o poder de determinar se a Internet é um fator positivo ou negativo no exercício do ativismo e da cidadania.

Assim, o site Avaaz é um exemplo em que o livre-arbítrio, exercido através da via online, é utilizado para o bem. Embora se verifique uma grande utilização da comunicação emocional na divulgação de problemas ou questões e na promoção das campanhas – como fora referido anteriormente –, as missões humanitárias obtêm resultados positivos que fazem a diferença.