E se as trevas tomassem conta de ti?

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Este mês, a Subscrito leu um romance de literatura fantástica: Guardiã da Noite, da autoria de Addie Thorley e editada pela TopSeller. Consideramos importante referir que esta é a obra perfeita para os fãs de Shadow and Bone, de Leigh Bardugo. Um dos temas centrais abordados pela autora é a escuridão, sendo explorados vários significados do termo.

Addie Thorley e a sua busca pela magia

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Addie Thorley cresceu a escrevinhar histórias. Licenciou-se em jornalismo na Universidade de Utah, mas o gosto por histórias mágicas e românticas nunca a deixou. Assim, dedicou-se à escrita de ficção, criando mundos fantásticos para jovens adultos. A autora já foi nomeada para os prémios literários YALSA (Young Adult Library Services Association) na categoria de literatura de jovem adulto.

No seu site oficial, poderás encontrar mais informações sobre as suas obras.

«Guardiã da Noite», de Addie Thorley

Guardiã da Noite, de Addie Thorley, é uma obra editada pela TopSeller.

I am not what they make of me, but what I make of me.

Addie Thorley cria um enredo mágico, com uma atmosfera e ação envolventes. Neste mundo complexo, acompanhamos Enebish, uma ex-guerreira Kalima mental e fisicamente desfigurada e que cometeu um crime de guerra. O seu castigo foi perder o seu poder Kalima de controlar e tecer a escuridão.

Após voltas e reviravoltas inesperadas, vemos Enebish a tentar encontrar o seu caminho e lidar com ansiedade e medos, que deve enfrentar para tentar redimir-se do crime que julga ter cometido. Em simultâneo, a protagonista vai tentando perceber em quem pode confiar e como salvar o seu Império. Aqui, qualquer leitor é capaz de se identificar com esta guerreira caída: quando perde o controlo do seu poder – controlar a escuridão – massacra uma caravana inteira de inocentes, sem se aperceber do que está a acontecer consigo e à sua volta. Esta falta de controlo leva Enebish a perder a noção da realidade.

Darkness waits like a devil outside my window – curling its shadowy fingertips beneath the shutters, drawing its inky claws across the latch, raising every hair on my body as temptation trickles down my spine.

Contudo, parece existir uma luz ao fundo do túnel, quando Ghoa, irmã mais velha adotiva de Enebish, lhe faz uma proposta irrecusável. Ghoa oferece-lhe uma chance de redenção, pedindo à irmã para descobrir onde se encontra escondido o líder de uma rebelião contra Ashkar. Temujin é então o alvo de Enebish e a sua captura significa que ela poderá pertencer novamente ao exército Kalima e deixar de ser recordada como Enebish, a Destruidora.

Para receber a aprovação de Ghoa, a nossa guerreira faz de tudo o que está ao seu alcance para ajudar e provar o valor que sabe ainda ter. Porém, depressa Enebish percebe que a relação que mantinha com a irmã, inicialmente pacífica e de mentora-aprendiz, se torna em algo mais negro: Ghoa esconde segredos terríveis da irmã; ambas tentam ser melhores do que a outra; cada uma à sua maneira perdem o controlando, acabando por se magoar física e emocionalmente.

You did what you thought was right with the information you had. That’s all any of us can do.

Assim, Enebish vê em Temujin um refúgio, quando Ghoa a trai e se vê a enfrentar uma luta interior entre a sua consciência e o dever. Nesta altura, Temujin parece ser o único a ajudar verdadeiramente a população e a estar disposto a ensinar Enebish a obter o controlo sobre as suas trevas. E Serik? Serik é o melhor amigo de Enebish e o único que sempre conseguiu as verdadeiras intenções por detrás das bonitas palavras tanto de Ghoa como de Temujin. No final, em quem confiará Enebish?

The sky doesn’t care that I am wicked and ugly. The clouds never rain down judgment for my crimes, and the moon shines without flinching on my injured limbs and scarred face. 

Esta é uma história sobre escuridão, captando vários significados do termo. No início da obra deparamo-nos com uma escuridão tão grande e profunda que chega a corromper: estas trevas deixam marcas emocionais e cicatrizes físicas em quem perde o controlo e deixa que a escuridão tome conta de si. No entanto, é também na escuridão que conseguimos iniciar um processo longo de cura: é na nossa própria escuridão que nos vemos capazes de descobrir quem somos e quem queremos ser.

Tal como em O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo, o leitor encontra uma combinação equilibrada entre magia, tradição, cultura, crenças, guerras e trevas.


I don’t feel like I’m just flying; I feel like I’m the sky itself.