Do Capuchinho Vermelho dos Irmãos Grimm ao conto dos nossos tempos

“Capuchinho Vermelho” é considerado um Conto de Fadas clássico de origem europeia do século XVII.

O Conto Popular

O nome do conto vem da protagonista: uma menina que veste uma capa vermelha com um capuz. Recordemos a história tal como a conhecemos hoje:

A Mãe da Capuchinho Vermelho pede-lhe que vá até à casa da Avó entregar-lhe um cesto com bolinhos e mel, e verificar se a Avó se sente melhor, pois tem estado doente. A Mãe aconselha-a que siga pela estrada; porém, a Capuchinho não ouve a Mãe e decide seguir pela floresta por ser o caminho mais rápido. No caminho, a menina depara-se com o Lobo, que lhe indica o local onde há flores mais bonitas para que a Capuchinho possa colher algumas para oferecer à Avó. Deste modo, o Lobo pode chegar primeiro à casa da Avó da Capuchinho. Uma vez em casa, comeu a Avó e vestiu as suas roupas. Quando a Capuchinho chega e se aproxima da Avó, nota algo muito estranho e inicia-se uma série de perguntas e respostas que todos nós gostamos de entoar:

 

Oh! Avó, disse ela, que grandes orelhas que tens!

— São para te ouvir melhor, minha netinha, foi a resposta.

— Mas, avó, que olhos tão grandes!, disse ela.

— São para te ver melhor, minha netinha.

— Mas, avozinha, que mãos tão grandes que tens!

— São para te abraçar melhor.

— Oh! Mas, avozinha, que terrível bocarra que tens!

— São para te comer melhor!

Ao dizer isto, o Lobo saltou e engoliu a Capuchinho. De seguida, deitou-se na cama para fazer uma sesta, mas um Caçador ouviu-o ressonar quando estava a passar e foi ver o que se passava. Em vez de encontrar a Avó, deu de caras com o Lobo; cortou-lhe a barriga e de lá saíram a Avó e a Capuchinho. A Capuchinho teve a ideia de encher a barriga do Lobo com pedras grandes. Quando o Lobo acordou tinha tanta sede que se dirigiu ao rio para beber água, mas quando se baixou caiu na água e afogou-se devido ao peso das pedras.

O Caçador aproveitou a pele do Lobo, enquanto a Avó e a Capuchinho comeram os bolinhos mandados pela Mãe. E com este episódio assustador, a Capuchinho Vermelho prometeu nunca mais fazer outro caminho senão o mais longo, sempre que fosse visitar a Avó.

As várias versões

Este conto sofreu inúmeras adaptações, alterações e releituras modernas, tornando-se, assim, parte da cultura popular mundial e um dos contos mais conhecidos de todos os tempos.

No entanto, a versão impressa mais antiga é da autoria de Charles Perrault  (1628-1703): “Le Petit Chaperon Rouge”, tendo sido retirada do folclore francês. A história de Perrault retrata uma “jovem rapariga, atraente e bem-educada” que, ao sair da sua aldeia, é enganada por um lobo. Este lobo come uma senhora já idosa, a sua avó, e arma uma armadilha para que a menina seja apanhada e, depois, igualmente devorada.

Esta história, sem qualquer final feliz, foi escrita para a corte do rei Louis XIV, no final do século XVII. Deste modo, o seu destinatário seria um público cujo rei entretinha com festas extravagantes e mulheres tendo como objetivo a prostituição.

De acordo com este cenário, Charles Perrault pretendia levar uma moral para que estas mulheres percebessem a existência de “maus pretendentes” e sedutores.

No final do conto, o autor explica a sua moral da seguinte forma:

“A partir desta história aprende-se que as crianças, especialmente raparigas jovens, bonitas, cortesas e bem-educadas, não se enganem ao ouvir estranhos. E não é uma coisa inédita se o Lobo, desta forma arranjar o seu jantar. Eu chamo Lobo, para todos os lobos que não são do mesmo tipo. Há um tipo com uma disposição recetiva, sem ódio, sem raiva; mas dócil, prestativo e gentil – seguindo as empregadas jovens nas ruas, até mesmo nas suas casas. Ai de quem não sabe que esses lobos gentis são de todas as criaturas como as mais perigosas!”

Por sua vez, os irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) conheceram, no século XIX, outras duas versões da história: a primeira, contada por Jeanette Hassenpflug (1791-1860) e a segunda por Marie Hessenpflug (1788-1856).

Os dois irmãos registaram a versão contada por Jeanette Hassenpflug como sendo a história original, tendo depois registado a segunda de forma a ser uma sequência da anterior.

Assim, a história, com o título de Rotkäppchen, foi incluída na primeira edição das suas coleções de contos: Kinder-und Hausmärchen (1812).

Ora, acredita-se que a fonte que deu origem à primeira parte é certamente o conto de Perrault. Contudo, os Irmãos Grimm modificaram o final desta parte do conto: introduziram um caçador que, após a menina e a sua avó terem sido comidas pelo lobo, abre a barriga deste e salva ambas. Este final é baseado no conto “O Lobo e os sete Cabritinhos”, igualmente escrito pelos Irmãos Grimm.

A segunda parte da narrativa consiste na menina, juntamente com a sua Avó, prender e matar um outro lobo, de forma a antecipar os seus movimentos baseados na experiência vivida anteriormente. A menina não se desviou do seu caminho quando o lobo a incentivou a fazê-lo, a sua Avó trancou a porta para ele não poder entrar e, quando o lobo se escondeu, a Avó diz à Capuchinho Vermelho para colocar uma panela com água na lareira. Assim, quando o Lobo desce pela chaminé, morre queimado na água a ferver.

Os dois autores desta versão reescreveram esta última parte inúmeras vezes até chegarem à história final, acima mencionada, sendo publicada na edição de 1857.

Estas duas versões, de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm, são certamente as mais conhecidas. Porém, este Conto Popular é essencialmente contado oralmente. Quer isto dizer que, ao longo dos anos, a história tem vindo a ser ligeiramente alterada; tal como o ditado: “Quem conta um conto acrescenta um ponto”.

A interpretação do Conto

Existem várias formas de interpretar este conto. Tal pode ser feito através de objetos nele presentes e de vários acontecimentos vivenciados pelas personagens ao longo do conto.

A forma mais imediata de entender é como um real aviso contra ataques de animais selvagens: nas regiões campestres da França, onde a história era frequentemente contada, existiam constantes ataques de lobos nas florestas. Com efeito, vários estudos apontam para o facto de esta história ter sido baseada em reais ataques de lobos na época em questão. Assim, o conto tinha o propósito de sensibilizar a população para que não entrasse em florestas onde existia uma forte probabilidade de se sofrer um ataque de lobo.

Um bom exemplo do simbolismo em torno de um objeto é a capa vermelha que a Capuchinho veste. Este objeto pode ser interpretado como um símbolo do sangue do ciclo menstrual ou a virgindade da menina, sendo o lobo, neste caso, um predador sexual. Assim, o conto tem o intuito de alertar para a violação e pedofilia.

No início do conto, a Capuchinho Vermelho tem a escolher dois caminhos: um deles é o longo, mas seguro; o outro é um caminho perigoso, apesar de ser rápido. Logo, esta escolha que a protagonista da história terá de fazer remete para a oposição dos conceitos fácil e difícil: nem tudo o que é fácil é a melhor opção, pois por vezes o caminho difícil é o mais sensato e o que deve ser seguido para, posteriormente, não se sofrer más consequências.

A Capuchinho Vermelho de hoje

Nos dias de hoje, a história é contada de uma forma diferente das anteriormente referidas: após o caçador libertar a Capuchinho Vermelho e a Avó da barriga do Lobo, ambas levam o seu corpo para perto do rio, onde enchem a sua barriga com pedras e, de seguida, a cozem. Tal ação tem o objetivo de, quando atirarem o Lobo ao rio, este afogar-se e nunca mais voltar à floresta.

Esta versão é a mais conhecida entre as gerações mais recentes. Analisaremos então os valores e comportamentos aqui presentes através desta versão mais familiar de todos.

Logo no começo do conto, a mãe da Capuchinho Vermelho avisa-a para fazer o caminho até casa da Avó pela estrada. Porém, a menina acaba por ir pela floresta desobedecendo à Mãe. O valor aqui presente é a obediência que todos nós devemos a alguém que seja responsável por nós ou que, por exemplo, esteja acima de nós na pirâmide social ou mesmo profissional.

No momento em que o Lobo avista a Capuchinho a colher flores para as oferecer à Avó, este decide falar com ela indicando-lhe um caminho rápido até à casa da Avó, também pela floresta. Porém, o Lobo mente à menina, pois aquele é o caminho que leva mais tempo. O Lobo tem o propósito de chegar primeiro a casa da Avó. O que o Lobo faz é mentir à menina, o que nos é ensinado desde novos para nunca o fazermos, pois tal poderá trazer consequências graves.

A Capuchinho confia na palavra do Lobo, também ignorando os avisos da Mãe para que nunca fale com estranhos. Este comportamento é aquilo por que todos nós devemos ter cuidado: não confiar em quem não conhecemos. Esta história é o exemplo perfeito sobre o que acontece quando o fazemos: há uma forte possibilidade de acabarmos por sermos enganados e até magoados física e emocionalmente.

Um outro valor aqui presente é o amor e a família. A menina decide levar à Avó bolinhos, mel e flores por esta se encontrar de frágil saúde e a Capuchinho sentir-se na responsabilidade de cuidar da Avó. A Capuchinho fá-lo por amar a Avó e por ser família, e enquanto seres humanos é nosso dever tratar e cuidar daqueles que amamos.

Quando o Caçador salva a Capuchinho e a Avó, ele toma a atitude correta. Podemos interpretar esta ação como a altura em que todos nós teremos de optar pelo que é correto, o bem, e pelo que é errado, o mal. O Caçador poderia ter apenas seguido caminho, ignorando os pedidos de ajuda da menina, porém, optou por ajudá-la, bem como à Avó: escolheu um valor tão nosso conhecido e importante, o bem.

Depois de salvas, ambas decidem atirar o Lobo ao rio, pondo, em primeiro lugar, pedras na barriga do Lobo para que este não conseguisse voltar para a floresta. Esta ação pode ser entendida como um ato de vingança por parte da Capuchinho e da Avó ou simplesmente um ato de defesa, no sentido em que, ao matarem o Lobo, este não voltará para fazer mal a quem passeie pela floresta.

Se seguirmos a interpretação anteriormente referida, em que esta história foi escrita para alertar a população dos ataques de lobo, o comportamento que o Lobo adota quando come a Capuchinho Vermelho e a Avó pode servir para alertar as pessoas da natureza do lobo enquanto animal: alimentar-se de carne, quer humana quer animal, e os seus ataques podem servir para se defenderem de caçadores. O Lobo é, afinal, um animal selvagem.

As adaptações

Através deste conto tão popular, realizaram-se várias versões reproduzidas de acordo com os dias de hoje e com o que interessa às gerações mais jovens. Algumas destas versões modernas reproduzidas classificam-se como filme, série ou música.

Em março de 2011, foi lançado o filme A Rapariga do Capuz Vermelho”, em Portugal, com a direcção de Catherine Hardwicke. Neste filme, a história é abordada de modo sombrio, sendo o lobo substituído por um lobisomem, fazendo um paralelismo com os contos medievais.

No mesmo ano, embora em outubro, foi lançada “Era Uma Vez”, em Portugal, na qual todos os Contos de Fadas são ligados de modo a pertencerem ao mesmo enredo. A Capuchinho Vermelho desta série, de nome Ruby, traz sempre a sua capa consigo. Segundo a sua avó, Ruby é o verdadeiro lobo, uma vez que a sua família carrega a maldição do lobo e em todas as luas cheias se transforma neste animal. Com isto, podemos interpretar a história de um modo diferente: Capuchinho Vermelho, para além de ser a vítima é também o agressor.

Por fim, a cantora e compositora Lana Del Rey, numa das suas músicas, faz alusão ao conto. Esta música tem o nome de “Big Bad Wolf”.

Deste modo, percebemos como este Conto Popular continua a ser bastante conhecido em todo o mundo, continuando a passar a mensagem, sem que nos apercebamos, de uma forma moderna e mais apelativa e que prende a atenção das crianças.