Eu, Mariana: A homossexualidade em Portugal. Um testemunho

Mariana contou à Subscrito alguns receios por ser homossexual em Portugal.

A Subscrito recebeu a história da Mariana, uma jovem de 21 anos que sempre se sentiu “diferente” em Portugal e, em geral, na sociedade. A Mariana quer partilhar a sua história para abrir mentalidades e, sabendo do muito que ainda há a fazer, pretende expor algumas ideias que tornem o Mundo um lugar mais tranquilo para a comunidade LGBTQI+.

Eu, Mariana

Quando me apercebi que sou homossexual, aceitei relativamente bem. Digo “aceitei”, pois foi algo que não estava à espera. Até esse momento, sempre pensei gostar de rapazes. Porém, tudo aconteceu quando vi o seu sorriso e os nossos olhares se cruzaram: estava apaixonada por uma rapariga. Tinha apenas 15 anos.

Dizem que é nestas idades que os adolescentes começam a conhecer o seu corpo e a perceber a sua orientação sexual. Eu, contudo, achava que não havia nada para perceber: achava que o meu corpo era como era e que gostava de rapazes tal como as minhas amigas.

Mas quando me apercebi que, afinal, talvez não fosse bem assim, foi quase como uma epifania, uma revelação que me surpreendeu. Contudo, achei tão natural como respirar. De repente, tudo à minha volta fez sentido. De repente, tudo o que sentia – a revolta, a raiva, o medo, a tristeza – desapareceu. De repente, percebi a razão pela qual eu sentia que não me identificava com nada nem com ninguém.  Curiosamente, senti-me a respirar fundo e, a pouco e pouco, fui-me encontrado a mim própria; fui-me conhecendo e, para minha grande surpresa, estava feliz com a pessoa em que me estava a tornar.

Olhando para trás, admito que tudo isto possa parecer algo saído de uma cena de um filme ou de um livro de romance. E embora tenha a consciência de que não foi algo assim tão pacífico para algumas pessoas que tenham descoberto a sua orientação sexual durante a adolescência, tal como eu, apenas posso esperar que tenham tido pelo menos o mesmo apoio que tive da minha família e dos meus amigos.

Penso que, em grande parte, a razão pela qual muitas vezes não aceitamos quem somos é por medo do que os outros vão dizer. Parece que, enquanto crescemos, somos inconscientemente manipulados para não sermos diferentes; para seguirmos as regras impostas pela nossa sociedade; para integrarmos uma comunidade o mais “normal” possível.

Mas o que é o normal?

Para mim, o normal é gostar de amarelo e poder chamar à rapariga que amo de minha namorada. Para a minha amiga Sofia, normal é gostar de azul e poder chamar ao rapaz que ama de seu namorado. Porém, nada disto significa que não nos respeitemos uma à outra. Muito menos significa que eu a ache “diferente” e vice-versa.

O normal e o diferente estão apenas na cabeça de cada um. E, verdade seja dita, sermos todos diferentes uns dos outros não é algo positivo? Do meu ponto de vista, somos todos diferentes independentemente do motivo. E se respeitamos que alguém goste de azul quando nós gostamos de amarelo, porque razão custa tanto à população portuguesa aceitar que uma pessoa pode apaixonar-se por alguém do mesmo sexo?

Atualmente, em pleno século XXI, ainda tenho receio de ir na rua e dar a mão à minha namorada, que, a bem dizer, poderia ser apenas minha irmã, minha prima ou minha amiga. Isto leva-me a crer que não há falta de consciencialização para a homossexualidade no nosso país. Pelo contrário, as pessoas têm esta ideia tão presente que para onde quer que olhem, acham que toda e qualquer atitude que alguém tome é por ser homossexual.

Por exemplo: um rapaz tem vestido uma camisola cor-de-rosa? Então é gay. Uma rapariga a andar de skate na rua? Então é lésbica.

Mas serão realmente?

Na verdade, na grande maioria das vezes não é nada assim. E isto levanta outro problema: a falta de conhecimento, ou mesmo de contato, dos portugueses com aquilo que é diferente para cada um deles. Em vez de assumirem imediatamente que aquele rapaz é gay só por vestir uma camisola cor-de-rosa, pensem que talvez ele apenas goste da cor. Em vez de assumirem que aquela rapariga é lésbica só porque anda de skate, pensem que talvez seja algo que faça parte do seu mundo ou simplesmente prefira isso a ter que andar a pé.

Somos todos diferentes de uma maneira ou de outra. Acho que mais vale todos respeitarmos isto e percebermos que ser diferente é de facto normalíssimo.