O medo e a literatura. Sabe como os dois conceitos se relacionam?

Sim, o medo e a literatura podem relacionar-se. E o conceito que os une é o gótico.

É sempre mais fácil relacionar qualquer emoção à pintura, à música e mesmo ao cinema. Contudo, as emoções refletem-se igualmente na literatura e no medo – este estado emocional que ninguém gosta de sentir – não é exceção.

Assim, a Subscrito vai mostrar-lhe de que forma é que estes dois conceitos se relacionam não só no campo das artes e da palavra, mas também como se aplica no quotidiano.

Medo e Literatura

Antes de mais, iremos apresentar as definições destas duas palavras que, afinal, talvez se relacionem. De acordo com o Dicionário Online Priberam, são estas as definições para “medo” e “literatura”.

me·do
(latim metus, -us)
nome masculino

  1. Estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça, reais, hipotéticos ou imaginários = FOBIA, PAVOR, TERROR;
  2. Ausência de coragem (ex.: medo de atravessar a ponte) = RECEIO, TEMOR ≠ DESTEMOR, INTREPIDEZ;
  3. Preocupação com determinado facto ou com determinada possibilidade (ex.: tenho medo de me atrasar) = APREENSÃO, RECEIO;
  4. [Popular]  Alma do outro mundo = FANTASMA.
“medo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008 – 2020.

li·te·ra·tu·ra
(latim litteratura, -ae)
nome feminino

  1. Forma de expressão escrita que se considera ter mérito estético ou estilístico; arte literária (ex.: assistiu a uma palestra sobre a importância da literatura  na sociedade contemporânea);
  2. Conjunto das obras literárias de um país, de uma região ou de determinada época
  3. (ex.: literatura portuguesa; literatura clássica);
  4. Disciplina que estuda obras, temas e autores literários (ex.: estudou bastante para o exame de literatura);
  5. Conjunto de escritores e poetas de uma determinada sociedade;
  6. Conjunto de textos ou obras escritas sobre determinado assunto (ex.: literatura científica, literatura de divulgação, literatura técnica) = BIBLIOGRAFIA;
  7. Folheto que acompanha um medicamento ou outros produtos, de conteúdo informativo sobre composição, administração, precauções, etc.
“literatura”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020.

Em ambos os conceitos, as definições que aqui nos interessam são as primeiras. Embora tenhamos estas definições, parece ainda impossível como podem estes dois conceitos estar relacionados. Existe um elo de ligação, que é nada mais, nada menos do que um género literário: o Gótico.

O Gótico

Tal como o nome indica, este estilo literário caracteriza-se por valorizar ambientes misteriosos ou lúgubres, nomeadamente em torno de aventuras românticas, tendo sido popularizado nos séculos XVIII e XIX. Na literatura, este género nasce com Horace Walpole (1717-1797), um romancista inglês que coloca, como uma certa ironia, a palavra “gótico” no título da sua obra O Castelo de Otranto – Uma História Gótica (The Castle of OtrantoA Gothic Story), escrita em 1764. O intuito do autor era que a palavra “gótica” remetesse para a ideia de algo bárbaro ou mesmo medieval. [1]

Nasce, assim, o estilo gótico na literatura, sendo em Inglaterra muito frequente encontrar-se em novelas escritas nesta época. Mas o que define este género literário e como se relaciona ele com o medo?

O que define este género são quatro aspetos possíveis de encontrar em todos os romances ditos góticos: a ação desenrola-se em lugares estranhos e em períodos temporais muito específicos; existe uma oposição de forças em que alguém obtém o poder sobre uma pessoa que se vê vide obrigatoriamente sobre restrições; existem menções constantes à tecnologia moderna; e, claro, não podia ficar de parte o sobrenatural.

Compreendemos, assim, que os romances góticos – ou as “gothic novels” inglesas – trabalham com lugares misteriosos, objetos acabados de ser inventados, tecnologia que ninguém ainda compreendia muito bem como funcionava e seres de outro mundo.

Terro vs. Horror

A escritora inglesa Ann Radcliffe (1764-1823) vê-se incomodada com estas questões e tenta distinguir “terror” de “horror” no artigo “On the Supernatural in Poetry”, publicado na revista New Monthly Magazine em 1826. A autora define então estes dois conceitos da seguinte forma [2]:

Terror:

  1. sugere acontecimentos ou situações horrorosos
  2. é moralmente bom;
  3. deixa o leitor “(…) preocupado com a experiência psicológica de estar cheio de medo e morto (…)”.

 Horror:

  1. mostra situações atrozes de um modo demasiado explicito;
  2. é moralmente mau;
  3. tem “consequências essencialmente prejudiciais ou limitadores para o estado de espírito do leitor”.

Ainda na linha de pensamento de Ann Radcliffe, Edmund Burke afirma que o Gótico tem como objetivo dar a experiência de algo sublime, chocando quem o experiência, de modo a conseguir fugir do seu dia-a-dia e escapar da racionalidade:

“Gothic, it is clear, is intended to give to us the experience of the sublime, to shock us out the limits of our everyday lives with the possibility of things beyond reason and explanation, in the shape of awesome and terrifying characters, and inexplicable and profound events”

— Edmund Burke, A Philosophical Enquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful (1757).

Drácula, Bram Stoker

Agora que percebemos como o medo poderá ser utilizado na literatura, em especial o terror, analisaremos o exemplo de Drácula (1897) de Bram Stoker. Abraham “Bram” Stoker nasceu em 1847, na Irlanda, e faleceu em 1912; em 1897 publica Dácula, uma novela gótica.

Drácula apresenta todas as características do género gótico na literatura, nomeadamente:

  1. Lugar estranho: Castelo do Conde Drácula (Capítulo 1 e 2);
  2. Poder: Homens vs Mulheres (Capítulo 3 e 23);
  3. Tecnologia Moderna: maquínas de escrever, gravadores, telegramas e avanços contemporâneos na medicina (Capítulo 10);
  4. Sobrenatural: vampito.

Quanto ao medo propriamente dito, para além das características acima mencionadas, encontramos temas que preocupavam a população inglesa no século XIX:

  1. Tradição vs Novidade;
  2. Migração;
  3. Crime;
  4. Decadência moral;
  5. Abuso sexual.

Quando o leitor se depara com estes temas ao longo da leitura, sente um medo crescente à medida que a história avança. Stoker apoveitou o medo da novidade, em especial da ciência e medicina, e o terror do desconhecido –  abordando temas como a migração, por exemplo – para suscitar o medo na mente do leitor.

Concluindo, o medo é então transmitido para a literatura através as palavras escritas, nomeadamente em descrições e pensamentos das personagens, que criam uma certa imagem de terror na mente daquele que lê. Estas imagens são imaginas pelo leitor, que obtem total controlo sobre elas.

Como vimos em Drácula, o medo não é apenas focado pelo escritor nos eventos da história, mas também nos temas que decide abordar ao longo da obra. Estes medos são, claro, os medos que a população inglesa do século XIX sente e talvez o próprio os sinta. Contudo, o faco de a obra de Stoker ser considerada um clássico significa que os temas que aborda são intemporais e talvez os leitores de hoje se identifiquem com temas que encontra ao longo da obra.

Enquanto nos livros a ideia de medo é transferida para o leitor através da sugestão do evento “assustador”; nos filmes, o medo é transmitido para a audiência através de imagens explicitas do evento “terrível”. No cinema, a audiência não em qualquer controlo sobre o que vê ou ouve, ficando a imagem marcada na sua mente, o que leva a que este sentimento de medo fique marcado quer a audiência queira quer não.