Eu, Mariana: será ele ou ela?

Uma carta aberta à sociedade enviada pela Mariana sobre transsexualidade.

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Tendo em conta o orgão genital com que cada bebé nasce, o nosso corpo e a nossa vida são definidos. Isto quer dizer que somos todos socialmente construídos e moldados: se nascermos com uma vagina seremos moldados como mulheres, mas se, pelo contrário, nascermos com um pénis somos moldados para sermos homens. Porém, uma coisa que (felizmente) aprendi nas aulas de Sociologia no ensino secundário é que o género é uma construção social, não dependendo, portanto, do nosso orgão genital.

Mas como explicar isto àqueles que não acreditam que é possível uma pessoa ser mulher mas sentir que é homem e vice-versa? Como explicar que há quem sinta que nasceu no corpo errado?

Penso que é aqui que entra um problema maior: o problema das mentalidades.

O problema não está em moldar mentalidades de crianças e adolescentes. Pelo contrário, o problema está em tentar abrir os olhos a todos aqueles que estão a educar essas crianças e adolescentes.

Retiro da minha experiência, embora possas pensar que é nenhuma por ser muito nova, a ideia de que as crianças são mais tolerantes e respeitadoras do que os adultos. Na verdade, a inocência de uma criança não a deixa ver maldade em nada. Logo, para elas amor é amor, da mesma forma que uma mulher é uma mulher e um homem é um homem, independentemente do orgão genital com que nasceu.

Como se não fosse suficientemente difícil física e psicologicamente alguém perceber que nasceu no corpo errado, e ter todas as dúvidas e todos os receios que julgo serem mais do que naturais, ainda terá de lidar com a sociedade em que vive a dizer-lhe constantemente que é quem o seu corpo revela ser. Mas é a sociedade que define quem somos ou cabe a cada um de nós decidi-lo?

Quero aqui deixar uma mensagem a todos os transsexuais que habitam este nosso Mundo, a que chamamos casa, e falo diretamente para todos eles: sejam quem sentem que são; pois não são vocês quem tem de se esconder, não são vocês que não pertencem ao nosso Mundo, à nossa casa. Todos vocês são merecedores de amor, de respeito, de compaixão e de lealdade. Sintam-se em casa, pois não estão sozinhos. Apoiem-se em quem vos ama e em quem não vos julga. E não tenham medo nem vergonha de pedir ajuda ou apoio.

Agora surge aqui outro problema que passarei a explicar já de seguida. Ora, se um ou uma jovem é transsexual, então os pais falharam a educar e a moldar o cérebro da criança, no que respeita ao aspeto já exposto lá atrás: “se tem pipi, é menina; mas se tem pilinha é menino”.

Tendo isto em conta, pretendo agora falar diretamente para os pais e outros familiares de jovens transsexuais: nenhum de vocês falhou na educação dos vossos filhos apenas por eles sentirem que não são quem a sociedade pretende que sejam. Estão a falhar, sim, se não fizeram os possíveis para os apoiar e amar por quem são. Nunca nenhum pai nem nenhuma mãe falha, quando educa o seu filho a ser quem quer ser. Ajudem-nos a serem respeitados e respeitadores; a serem uma voz ativa na luta pelos seus interesses e direitos. Ensinem-lhes que o nosso Mundo, a nossa casa, não precisa de ser cruel nem “preto no branco”. Não faz mal sermos cinzentos, tal como também não faz mal sermos às cores.